A OURIVESARIA IA ACABAR. MAS PARECE QUE NÃO FOI BEM ASSIM

O avanço da inteligência artificial coloca em perspectiva uma velha discussão sobre o futuro da joalheria, a formação profissional e o valor do fazer manual.
Há muitos anos, em uma conversa com um ourives, ouvi uma afirmação que nunca esqueci: a profissão de ourives estava com os dias contados. O avanço dos programas de modelagem tridimensional, especialmente o Rhinoceros, tornaria o trabalho manual cada vez mais desnecessário. O futuro da joalheria, segundo ele, estava nas telas dos computadores, nas impressoras 3D e nas novas tecnologias de produção.
Era um discurso bastante conveniente para quem estava interessado em promover cursos de modelagem digital. Afinal, não existe argumento comercial mais eficiente do que convencer alguém de que sua profissão está prestes a desaparecer caso não compre uma nova formação.
Na época, eu já tinha uma visão diferente. Não por resistência à tecnologia, muito menos por desconhecer sua importância, mas porque sempre entendi que existe uma diferença fundamental entre dominar uma ferramenta e dominar uma profissão.
Em 2015, quando fundei a Escola Brasileira de Joalheria, essa convicção já fazia parte do projeto educacional que eu queria construir. A EBJ nasceu com o compromisso de valorizar e preservar o conhecimento da ourivesaria, não como uma atividade nostálgica ou uma tradição condenada ao passado, mas como uma profissão com futuro.
O futuro é feito à mão.
Essa sempre foi uma das ideias que orientaram a escola. E foi também por essa razão que, ao longo de mais de uma década, nunca incluímos o Rhinoceros entre os nossos cursos. Não porque a modelagem digital não tivesse utilidade, mas porque fizemos uma escolha sobre o que considerávamos essencial ensinar. Nossa prioridade sempre foi formar ourives, e profissionais capazes de compreender o metal, suas propriedades, suas possibilidades e limitações. Pessoas que dominassem técnicas de construção, soldagem, conformação, acabamento e, sobretudo, que soubessem transformar uma ideia em uma joia.
O que aconteceu desde então torna aquela conversa antiga particularmente interessante.
A tecnologia que prometia substituir o ourives também pode ser substituída
Hoje, com a popularização da inteligência artificial, uma pessoa sem qualquer formação em Rhinoceros pode utilizar ferramentas como o ChatGPT para desenvolver conceitos de joias, gerar imagens e explorar inúmeras possibilidades de desenho. Plataformas especializadas já permitem transformar descrições ou imagens em modelos tridimensionais, inclusive arquivos destinados à impressão 3D, embora ainda existam limitações técnicas importantes.
Aquilo que antes exigia horas diante de um software, uma formação específica e o domínio de inúmeros comandos começa a ser realizado por sistemas que interpretam instruções em linguagem natural. E aqui está a ironia que considero mais interessante: a tecnologia que foi apresentada como responsável pelo desaparecimento do ourives agora vê parte das suas próprias funções ser automatizada por outra tecnologia.
O Rhinoceros não desapareceu, assim como a inteligência artificial ainda não substitui integralmente o trabalho de um modelador 3D experiente. Mas a simples habilidade de operar comandos de um programa já não representa o mesmo diferencial de alguns anos atrás.
E a tendência é que esse conhecimento exclusivamente operacional se torne cada vez menos valorizado.
É curioso observar como o discurso da substituição envelhece rapidamente quando a tecnologia também passa a ser substituível.
Saber fazer uma joia não é a mesma coisa que saber desenhá-la em um computador
É necessário fazer uma distinção que considero fundamental.
A inteligência artificial pode criar uma imagem extraordinária de um anel. Pode propor formas, volumes, texturas e combinações de materiais, e algumas ferramentas conseguem até gerar modelos tridimensionais que podem seguir para etapas de fabricação.
Mas existe uma distância considerável entre uma joia visualmente convincente e uma joia tecnicamente bem construída.Quem compreende a ourivesaria sabe avaliar espessuras, resistência, peso, equilíbrio, ergonomia, viabilidade de execução e comportamento dos metais. Sabe identificar um problema estrutural antes que ele se transforme em prejuízo. Sabe como uma peça deve ser construída, ajustada, montada, soldada, acabada e, quando necessário, reparada.
Esses conhecimentos não pertencem a um programa. Pertencem a uma profissão.
Não estou defendendo que todos os joalheiros precisem executar manualmente todas as etapas de uma produção. A fabricação digital tem aplicações importantes e continuará fazendo parte da indústria joalheira. O que questiono é a ideia de que aprender a utilizar uma ferramenta equivale a adquirir uma formação profissional.
Um ourives pode incorporar novas tecnologias ao seu trabalho sem deixar de ser ourives. Pode usar modelagem digital, inteligência artificial, impressão 3D e qualquer outra ferramenta que faça sentido para sua produção. Sua formação continuará sendo relevante justamente porque ele possui conhecimento para avaliar o que essas ferramentas entregam. O caminho contrário não é tão simples.
Uma pessoa que aprendeu exclusivamente a operar um software pode descobrir que boa parte daquilo que levou meses para dominar passou a ser executada automaticamente. E, se não conhece os fundamentos da joalheria, terá dificuldade para avaliar a qualidade técnica do resultado.
Isso não significa que todos os cursos de modelagem digital tenham sido um investimento perdido. Significa que aprender apenas a operar um software, sem compreender o ofício ao qual ele se destina, é construir uma formação dependente da permanência daquela ferramenta.
E nenhuma ferramenta tecnológica tem permanência garantida.
Quando criei a EBJ, meu objetivo não era disputar espaço com escolas de modelagem digital. Era contribuir para que a ourivesaria continuasse sendo ensinada, praticada e reconhecida como uma profissão. Ao longo da minha trajetória, trabalhando na indústria joalheira e posteriormente na educação, compreendi que a formação de um profissional não pode depender exclusivamente das demandas comerciais de um determinado momento.O mercado muda, as técnicas evoluem, novas ferramentas surgem e outras perdem relevância. Mas uma formação consistente precisa oferecer algo que acompanhe o profissional durante toda a sua trajetória.
É isso que continuamos defendendo na EBJ: o conhecimento técnico como fundamento, a autoria como diferencial e a compreensão do mercado como parte indispensável da vida profissional.
Não se trata de colocar o trabalho manual em oposição à tecnologia. Trata-se de compreender que uma coisa não elimina necessariamente a outra e que a inovação não deve ser utilizada como justificativa para desvalorizar conhecimentos construídos ao longo de séculos.
Aliás, a inteligência artificial pode se tornar uma excelente aliada da ourivesaria. Pode ampliar possibilidades criativas, facilitar processos e democratizar o acesso a recursos antes restritos a profissionais especializados. Mas democratizar o acesso à criação de imagens e modelos digitais não é o mesmo que democratizar o domínio de uma profissão.
Afinal, quem estava com os dias contados?
Mais de dez anos depois da fundação da EBJ, continuo acreditando no mesmo princípio que orientou sua criação. Não porque tenha previsto o surgimento da inteligência artificial ou porque considere que a joalheria manual esteja imune às transformações tecnológicas. Nenhuma profissão está.
Mas porque sempre me pareceu um equívoco confundir a evolução dos meios de produção com o desaparecimento do conhecimento necessário para produzir.
Talvez a pergunta nunca devesse ter sido se o Rhinoceros acabaria com a profissão de ourives, mas sim o que aconteceria com os profissionais que apostassem toda a sua formação no domínio de uma ferramenta. Hoje, a inteligência artificial começa a oferecer uma resposta.
E há uma certa justiça poética nisso: enquanto discutíamos o possível desaparecimento de um ofício milenar, a própria atividade que prometia substituí-lo passou a enfrentar a automação.
A ourivesaria, evidentemente, também continuará mudando. Mas o conhecimento sobre materiais, técnicas e processos de fabricação permanece essencial para transformar projetos em objetos reais.
No fim, talvez a profissão mais vulnerável nunca tenha sido a de quem sabe fazer joias, mas a de quem aprendeu apenas a operar o programa que as desenha.


Comentários